"Enquanto houver pobres, uma teologia que
parte da opção preferencial pelos pobres é válida e necessária em
um continente como a América Latina". A análise é do teólogo sueco
e luterano Olle Kristenson, em entrevista concedida por e-mail à
IHU On-Line.
Sua tese de doutorado em Teologia teve
como tema a Teologia da Libertação de Gustavo Gutiérrez. Em 2012,
celebrar-se-ão os 40 anos do lançamento da importante obra
teológica.
Kristenson explica que o fundamento da
percepção da esperança de Gutiérrez "vem de sua convicção de que a
vida é sagrada".
E continua: "Baseada na fé da ressurreição, surge sua convicção de
que é a vida e não a morte que tem a última palavra na história.
Isto foi o que lhe motivou como ‘pastor na sombra da
violência' dar razão à esperança em uma situação de violência e
muita incerteza".
Olle Kristenson é doutor em Teologia pelo
Departamento de Teologia da Uppsala University (Suíça). É teólogo e
pastor da Igreja Luterana na Suécia. Sua tese de doutorado,
intitulada Pastor in the Shadow of Violence. Gustavo Gutiérrez as a
Public Pastoral in Peru in 1980 and 1990, foi publicada em 2009
pela Editora da Uppsala University.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Depois de 40 anos do livro
de Gustavo Gutiérrez (Teologia da Libertação. Perspectivas), o que
mudou na Igreja e na Teologia da Libertação? Quais foram os
principais avanços e limites?
Olle Kristenson - Penso que seu principal
avanço seja seu enfoque na opção preferencial pelos pobres. Com a
aprovação em Puebla, em 1979, isso passou a ser parte da doutrina
da Igreja universal e não somente da Igreja Católica. O limite é
que a primeira geração de teólogos da libertação não é mais jovem e
parece que é difícil encontrar espaço para novas gerações.
Felizmente, há força em teólogos como Gutiérrez e Jon
Sobrino.
IHU On-Line - Quais são as principais
ideias que o senhor defende no livro Pastor in the Shadow of
Violence. Gustavo Gutiérrez as a Public Pastoral in Peru in 1980
and 1990?
Olle Kristenson - Eu descrevo Gutiérrez
como um pastor que se dirigiu ao público peruano através do jornal
La República em momentos críticos do Peru contemporâneo e por isso
o chamo "pastor da nação". O jornal se converteu em um púlpito
figurativo para ele. Desde então, fez seu discurso pastoral para
dar razão à esperança em uma situação muito difícil. Vejo este
discurso teológico pastoral como uma síntese de três discursos que
identifico em seus textos, os discursos políticos radical e liberal
e o discurso teológico católico. Os dois discursos políticos lhe
ajudam a desenhar o contexto onde o discurso radical analisa a
situação injusta da sociedade peruana que aprofunda a pobreza. O
discurso liberal fala de democracia, paz e direitos humanos, mas o
discurso radical sempre condiciona o discurso liberal: sem justiça
não haverá paz. O discurso teológico católico funciona como
referência para a ação pastoral. Desta forma, os discursos
correspondem aos diferentes níveis no modelo ver (os discursos
políticos radical e liberal) - julgar (o discurso teológico
católico) - agir.
IHU On-Line - Quais são as principais
características da pregação de Gutiérrez?
Olle Kristenson - Seu discurso é,
sobretudo, um discurso para dar razão à esperança. Este discurso se
encontra tanto em seus artigos e ensaios teológicos em relação à
conjuntura, como em suas reflexões teológicas e homilias em relação
ao ano litúrgico. Utilizo quatro níveis em minha análise para
mostrar que Gutiérrez guia, conforta, exorta e anima seus leitores
e seus ouvintes.
IHU On-Line - Que relação pode ser
estabelecida entre a teologia da libertação e os direitos
humanos?
Olle Kristenson - Esta é uma pergunta
interessante e importante. Respondo-a partindo de minha leitura de
Gutiérrez. Esta foi a entrada para minha pesquisa sobre sua
teologia. Ia entrar em sua teologia justamente através deste tema e
a partir de sua leitura de Bartolomeu de Las Casas. Em minha
interpretação, a grande obra de Gutiérrez sobre Las Casas, En Busca
de los Pobres de Jesucristo (1992), é uma análise que tem um
enfoque na teologia de Las Casas como uma teologia que parte do
direito à vida e do direito à liberdade dos índios. O direito à
vida dos índios é visto desde sua morte precoce e injusta; "os
índios morrem antes do tempo", para parafrasear Las Casas. E o
direito à liberdade é visto em relação a se converter livremente à
fé cristã ou negá-la. "Se produz, então, em Las Casas, uma
aproximação que dará lugar a um enfoque que poderíamos denominar
metodológico." (GUTIÉRREZ, G. em En Busca de los Pobres de
Jesucristo, p. 101-102). Para Gutiérrez, a perspectiva de Las Casas
é válida em nossos tempos. Por isso, os direitos humanos podem ser
somados justamente nestes dois direitos, o direito à vida e o
direito à liberdade, com um enfoque na situação dos pobres. Lendo
os textos de Gutiérrez, é evidente que não se podem negar estes
dois direitos.
IHU On-Line - Qual é a atualidade da
teologia da libertação na realidade latino-americana
hoje?
Olle Kristenson - Eu diria, como
Gutiérrez, que, enquanto houver pobres, uma teologia que parte da
opção preferencial pelos pobres é válida e necessária em um
continente como a América Latina.
IHU On-Line - Como entender a hermenêutica
da esperança em Gutiérrez?
Olle Kristenson - Sem dúvida o tema da
esperança é central nos textos que analiso e em toda sua reflexão
teológica: "Dar razão da sua esperança é parte essencial do
testemunho cristão. Nesse âmbito se situa a teologia; ela é sempre
uma interpretação dos motivos que temos para esperar." (GUTIÉRREZ,
G., em um texto de 2003). A um texto de 2001 ele dá o título
Esperança e Vigilância que sublinha que a esperança não é somente
algo que nos vem; é preciso também vigiar para que ela se
concretize. Em última instância, o fundamento de sua percepção da
esperança vem de sua convicção de que a vida é sagrada. Baseada na
fé da ressurreição, surge sua convicção de que é a vida e não a
morte que tem a última palavra na história. Isto foi o que lhe
motivou como "pastor na sombra da violência" dar razão à esperança
em uma situação de violência e muita incerteza.
IHU On-Line - Em 2012 acontece no Brasil o
Congresso Continental de Teologia. O que seria importante discutir
neste encontro?
Olle Kristenson - Quando eu soube deste
congresso fiquei bastante feliz. Penso que é preciso retomar muitas
ideias da Teologia da Libertação desde seu início, mas também se
abrir aos novos desafios e aos novos temas. Parece-me necessário
abrir um espaço onde as diferentes gerações de teólogos da
libertação se encontrem e discutam. É preciso enfocar o tema dos
pobres e analisar quais são "os rostos dos pobres" para retomar o
que se disse em Puebla e Santo Domingo a respeito disso.
IHU On-Line - Em que direção o senhor vê
que caminha a Igreja do século XXI, 50 anos depois do Concílio
Vaticano II?
Olle Kristenson - Com preocupação, vejo
que há grupos de tendências pré-conciliares que, todavia, têm
influência. Mas também há grupos que continuam avançando em sua
reflexão depois do Concílio. Por isso, me parece importante
comemorar esses 50 anos com uma reflexão crítica. A forma como o
episcopado latino-americano tem trabalhado o Concílio em suas
conferências gerais em Medellín, Puebla, Santo Domingo e
recentemente em Aparecida, com seus avanços e retrocessos, de todas
as maneiras, é um sinal de que a Igreja latino-americana continua
sendo relevante em seu contexto. Eu gostaria que se abrisse um
pouco mais para as igrejas não católicas. Temos muitos desafios que
podemos enfrentar melhor se caminharmos juntos como
crentes.
Fonte:
Entrevista especial com Olle Kristenson
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